Sou Daniela de Carvalho Guedes Bombini, advogada, mãe da Clara, da Beatriz e do Francisco, nosso inesquecível Super Chico. Fui convidada pelo Família TEA Bauru para escrever este texto para a coluna no Portal GPN, e o faço com emoção, responsabilidade e profundo respeito a todos que caminham nessa luta pela inclusão.
Minha vida ganhou um novo sentido com a chegada do Chico. Ele nasceu em 2016, trazendo consigo não apenas desafios clínicos, mas também uma forma muito especial de olhar para o mundo. Com Síndrome de Down e múltiplas comorbidades, Chico enfrentou desde cedo uma rotina intensa de tratamentos e cuidados. Apesar disso, irradiava luz, força e amor, nos ensinando diariamente sobre resiliência e sobre a importância de enxergar a vida com ternura e coragem.
Nosso tempo juntos foi profundamente transformador. Chico viveu por seis anos e quatro meses, tempo em que nos ensinou a valorizar cada gesto, cada sorriso e cada pequena conquista. Ele partiu há pouco mais de dois anos, mas sua presença continua viva em mim, em nossas lembranças e em todos que o acompanharam. Costumo dizer que Chico foi, e ainda é, meu maior professor, alguém que, mesmo sem falar uma única palavra, dizia muito, ou mesmo tudo de importante.
Foi através dele que conheci um mundo diverso, cheio de barreiras, mas também repleto de afetos e encontros. Com Chico, percebi de forma muito clara que a inclusão não é caridade, não é um favor que se concede, mas um direito inegociável que precisa ser assegurado em todas as esferas da vida social. Ele me fez compreender que cada pessoa com deficiência é um sujeito pleno de direitos e que a sociedade precisa urgentemente ser transformada para acolher essa diversidade.
Embora Chico não tivesse autismo, sei profundamente a importância da Família TEA. Reconheço na luta dessa comunidade a mesma urgência que senti ao longo da vida dele: a necessidade de informação, de conscientização e de políticas públicas que garantam não apenas sobrevivência, mas dignidade, respeito e participação social. Por isso, mesmo com trajetórias diferentes, nos reconhecemos uns nos outros e caminhamos juntos em busca de um mundo mais justo.
Nesse percurso, as redes sociais desempenharam um papel central. Quando decidi apresentar Chico ao mundo, percebi que uma simples postagem podia abrir portas, acolher outras famílias e até mesmo educar a sociedade. As redes se transformaram em espaço de visibilidade e resistência, permitindo que Chico existisse socialmente para além das barreiras impostas por suas condições clínicas. Cada fotografia, cada relato compartilhado, era uma forma de dizer: ele está aqui, ele faz parte de nós, ele merece ser visto e respeitado.
As redes sociais, muitas vezes criticadas por seus excessos, mostraram-se também instrumentos poderosos de informação e mobilização. Elas aproximaram famílias que viviam realidades semelhantes, fortaleceram laços de solidariedade e abriram espaço para um diálogo necessário sobre capacitismo, preconceito e discriminação. Ao compartilhar a vida do Chico, percebi que não falava apenas de nós, mas de milhares de pessoas com deficiência que ainda lutam para serem reconhecidas e incluídas.
Como advogada, compreendo que a inclusão não é apenas uma questão de sensibilidade ou de afeto — embora ambos sejam fundamentais. Ela é, antes de tudo, uma questão de direito. Nossa Constituição Federal, a Convenção Internacional sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência e a Lei Brasileira de Inclusão asseguram igualdade de condições, acessibilidade e dignidade às pessoas com deficiência. Ainda assim, sabemos que a realidade está longe do ideal, pois persistem barreiras físicas, atitudinais e sociais. Por isso, falar de inclusão é também falar de justiça, de cidadania e de compromisso ético e jurídico com a pessoa humana.
Ser mãe atípica me tornou mais atenta às desigualdades e mais engajada em buscar mudanças. Mesmo depois da partida do Chico, sigo com o compromisso de dar continuidade à luta que nasceu com ele. Continuo acreditando que é possível transformar realidades quando nos unimos, quando compartilhamos nossas histórias e quando escolhemos lutar contra a indiferença e o preconceito.
Sei que há um longo caminho a ser percorrido. Ainda enfrentamos capacitismo, todo o tipo de barreiras, falta de acessibilidade e carência de compromisso político. Mas sei também que a mobilização da sociedade pode gerar mudanças concretas. A Família TEA de Bauru é um exemplo vivo disso: quando famílias se unem, suas vozes ecoam mais alto e transformam contextos.
Por isso, deixo aqui meu convite: que todos se juntem a nós nessa caminhada, que derrubemos preconceitos, que construamos pontes de respeito e que possamos, juntos, promover mudanças positivas. A diversidade não é uma ameaça, mas uma riqueza que precisa ser reconhecida e celebrada.
Com imensa alegria e senso de responsabilidade, aceitei o convite para ser Embaixadora da 1ª. Expo Viva Inclusão, que acontecerá na Sorri/Bauru em 19 de outubro de 2025, das 10h às 17h. Estendo a cada um de vocês o convite para participar deste encontro transformador, que será não apenas um evento, mas um espaço de acolhimento, aprendizado e esperança em um futuro mais humano e inclusivo.
Agradeço, por fim, ao grupo Família TEA Bauru e ao Portal GPN pelo espaço e oportunidade.


